E outro dia, estava eu conversando com uma amiga minha através da Internet. Fazia muito tempo que não a via, na verdade, mais de 10 anos. Ela é médica veterinária e possui uma “clínica” de banho e tosa. Coincidentemente, por aqueles dias, uma turma de amigos meus e eu estávamos combinados de fazer um churrasco no sítio de um deles, e resolvi convidar esta amiga minha. Nossa, nunca imaginei uma reação daquela. Por umas 2 horas (ou mais) ela me explicou vários conceitos do vegetarianismo, me acusou de maltratar animais, de comer cadáveres.
Puta que a pariu, eu convido alguém pra se divertir, comer uma picanhazinha, tomar umas cervejas, ouvir umas modas de viola... e me toca “ouvir” um baita sermão de horas! Tudo bem, cada um tem seus conceitos e suas idéias, cada um tem a liberdade de defender seu ponto de vista. Mas achei muito exagerado, mais uma vez alguém que se julga politicamente correto querendo dar lição de moral no “politicamente incorreto”.
Tudo bem vai. Aliás, estava tudo bem até eu questionar sobre a profissão dela. Porque ela disse que eu como cadáver e que maltrato animais (ou ao menos compactuo com o sofrimento deles), então questionei se na faculdade ela não estudou essas coisas de produção animal. Oras, eu não estudei pra isso, mas minha família veio da roça, eu sei como se faz, e pra mim não tem nada disso! Ela que estudou isso deveria saber. Tudo bem, o animal morto é um cadáver. Mas isso é palavra de impacto, pra causar uma comoção nas pessoas. Vai se foder, meu. Então não vou mais comer a alface porque entra bosta dentro dela junto com a água que ela absorve da terra. Enfim, depois desse meu questionamento, além de ela não me responder, fazem mais de 2 anos que ela me bloqueou no emiéssiene. Quer saber, ela que se foda com as verduras dela.
Aí tudo bem, tudo jóia. Outro dia estava assistindo um filme com a minha namorada no sofá da sala do apartamento dela. Acho que era do Batman... enfim, aí entrou o comercial e ela veio com um papo meio esquisito. Falou que tinha visto no Iultóba que lá na Coréia o povo come carne de cachorro. Que lá é uma iguaria muito apreciada da culinária asiática. E me perguntou o que eu achava. Como eu sou um cara meio rústico respondi “ema ema ema, cada um com seus pobrema”. Depois completei, disse que essas coisas são difíceis de julgar, é cultural. E que como aqui se come jacaré, javali, avestruz, perninha de rã, eu não vejo nenhum problema nos caras comerem cachorro. É tudo animal mesmo.
Depois daquele silêncio mortal por alguns minutos ela disse “oras, o ser humano também é um animal, então pra você também não tem problema”. Aí eu senti que ela estava querendo começar a apelar comigo. Alguém devia ter falado aquelas historinhas de comer cadáver, maltratar os bichinhos e blá blá blá... Depois dessa eu também resolvi apelar pra ignorância. Falei “olha, se você quer virar vegetariana fala logo, não fica aí com essas conversas, querendo me fazer sentir culpado. Minha picanha não tem nada a ver com comer seres humanos, nem com comer a porcaria do seu Pequinês”.
Porra, quer falar dos benefícios de não comer carne? Quer falar dos problemas com a criação e o abate de animais? Pode falar, de boa, mas não tente me fazer parecer culpado de um crime que eu não cometi. Consumo de carne não é consumo de droga ilícita. Apesar que nossos valores andam mudados ultimamente. Hoje se fala tanto na legalização da maconha, que não duvido que legalizem os entorpecentes “naturebas” e proíbam o “massacre” dos animais para consumo. E quer saber, consumo carne vermelha desde criança. É isso aí, hoje eu tenho dependências química, física e psicológica da carne. Vai aparecer um vídeo da minha mãe fazendo aviãozinho com uma colher de carne pra mim quando eu era nenê, no Fantástico, e todo mundo vai ficar horrorizado. Mas é isso mesmo, não consigo largar. Nunca tentei, mas em “épocas de vacas magras”, quando tinha que passar uns dias sem comer carne, eu tinha crises de abstinência. Sonhava com uma ripa de costela na brasa e acordava porque mordia forte a língua pra sentir o sabor de uma carninha. Até hoje, quando vou no supermercado e to sem grana pra comprar uma carne, eu fico lá na parte do frigorífico só apreciando aquelas belezinhas. Pego aqueles bifes de contrafilé e fico analisando aquelas gordurinhas, o formato das fibras, os pedaços com menos nervos. Sabe quando o apaixonado por carros vai ao salão do automóvel, e fica analisando aquelas ferraris, bmws? O cara sabe que nunca vai ter um daquele, mas é gostoso mesmo assim ficar olhando, passando a mão. É mais ou menos isso, só que mais dia ou menos dia aquele pedação de carne vermelha vai parar no espeto da minha churrasqueira, um sonho realizado.
Então não tem jeito... podem tentar fazer a minha namorada engolir essa. Pode colar pra quem achava que o leite brotava na caixinha quando era criança, quem achava que a salsicha do cachorro quente era feita do mesmo jeito dos biscoitos, ou o Méquidonaldis era tudo feito sem assassinar os pobres animais indefesos.
Mas aqui não cola, meu avô era pequeno agricultor no interior de São Paulo. Morava num sítiozinho de 7 hectares. Dali ele tirou grana pro meu pai estudar. E ali a gente ia desde cedo, via o Tio Zequinha sangrar a leitoa, matar a novilha, degolar os frangos. Depois vinha a festança da família. Não conheci até hoje alguém que vive nesse meio e que conhece de verdade, conhece mesmo o sistema de criação de animais para abate, que fique aterrorizado com isso, que se sinta um ser desprezível por um dia ter ingerido um cadáver de vaca. Geralmente quem vem com essas conversas pra cima de mim é quem achava que o leite vinha da caixinha.


